terça-feira, 3 de maio de 2011

Deus trabalha perfeitamente

Hannah Whitall Smith em O Segredo de Deus para a Felicidade, p.183 cita George Macdonald:
“Tu trabalhas perfeitamente. E mesmo que pareça que algumas coisas não estejam indo bem, isso acontece por que elas são tão profundamente amorosas e tão grandemente sábias. Minha sabedoria, nem chega a ser sonho; meu amor, ralo e frágil; Tu envolves tudo, e torna-os perfeitos.” O trabalho de Deus e Suas construções em nós são perfeitas.
Nos frustramos muitas vezes, por estarmos na situação de Jairo com a filha no leito, enquanto Jesus para e observa que alguém o tocou porque Dele saiu virtude. A vontade talvez seja dizer “Jesus, minha filha está morrendo, seja mais rápido”, mas, Deus trabalha perfeitamente e quando não faz do jeito que você espera, Ele faz de outro muito melhor do que você espera. Você deseja apenas cura, e Deus talvez deseje fazer milagre.
Piper em Em busca de Deus, p.17, diz que “a realidade é como um mosaico, as partes podem ser feias em si, mas o todo é belo”. Até os propósitos mais “feios” de Deus têm um objetivo sereno e eterno. Se você está atrelado ao pensamento e vida de Deus, então não deve enxergar os acontecimentos como catástrofes. De suas mais demoradas lágrimas nascerá seu maior ministério e você aprenderá a pendurar o sentido de sua existência no cabide certo.
Hev

terça-feira, 26 de abril de 2011

Portadores espirituais

O homem é encantado pelo belo e perfeito. Não compramos um vaso apenas para pôr flores, mas porque ele é delicado, possui uma cor bonita e combina com o ambiente; nós vamos além do necessário.

Existe um histórico de exclusão. No Antigo Testamento havia restrições bem claras para coxos e enfermos e os cordeiros imperfeitos não serviam para expiação de pecados. Textos do século XIV remontam uma história de inquisição em que dementes mentais e portadores de necessidades especiais estavam na linha de pessoas torturadas e flageladas por não terem alma ou por serem amaldiçoadas e hospedarem demônios. Se não tinham alma, a eliminação podia ser legitimada diante de Deus. Ainda hoje algumas tribos eliminam crianças doentes e excepcionais; em nosso meio os menos favorecidos financeira, imagética e mentalmente vão ficando à margem do convívio.

A sociedade é cruel e sectarista escolhendo sempre pelos padrões de “normalidade” e perfeição; abrindo um insignificante caminho para os pobres, humilhados, feios, doentes, passarem. Quanto menos barulho e estragos fizerem, melhor. E quanto menos ajuda precisarem, melhor ainda.

O grande foco do Novo Testamento é o perdão de pecados. As pessoas faziam relação entre pecado e enfermidade. Quando um paralítico é colocado perante Jesus numa situação bem constrangedora e delicada descendo pelo teto, Jesus diz que seus pecados estão perdoados. O que era mais importante? Perdoar pecados ou curar enfermidade? Jesus mostra que tem autoridade para perdoar, e não só perdoar como reverter todo o quadro da vida de uma pessoa, fazendo com que ela se levantasse e retomasse a sua vida, não precisando mais daquele velho leito.

Mas o que me chama mais atenção nessa história (Mt 9.1, Mc 2.1, Lc 5.17) é que Jesus viu quão grande era a fé daquelas pessoas que carregavam o paralítico. Os textos não fazem especificamente menção à fé do homem na maca, apesar de Jesus contemplar o que havia em seu coração; a única coisa que sabemos é que ele se levantou imediatamente e deu glórias a Deus segundo o texto de Lucas.

Algumas pessoas se reúnem para ajudar outra pessoa que não podia andar, que provavelmente era um morto-vivo; sem condições de trabalhar e relacionar-se com outros. Estas pessoas decidem chegar perto de Jesus de qualquer jeito e como havia muitas dificuldades, elas fazem um buraco no teto. Jesus olha o que outros iriam ver como confusão, loucura, coisa de ladrões, e avalia a fé dos homens que carregavam. Aqueles homens eram portadores espirituais. Se importavam com o paralítico; não queriam saber da vergonha que estavam passando, eles queriam que ele fosse curado.

Estamos entrando em tempos cada vez mais difíceis, em que os filhos têm vergonha dos pais; os cônjuges já não se olham mais; os que não se encaixam no perfil de beleza devem ser eliminados do grupo; um tempo em que a igreja está tão focada no belo, em eventos marcantes que se esquece de ser a maca do homem, provavelmente feio e sem forças, que não consegue chegar perto de Jesus sozinho. 

O Cordeiro Perfeito Jesus fez um único sacrifício por nós, tornando desnecessário qualquer outro tipo de sacrifício. Jesus toca nas pessoas sejam elas doentes, feridas, mal-cheirosas ou não. Ele traz a pedagogia do amor, da insistência, do educar acreditando na capacidade de compreensão. Isto mostra pra nós que a maior honra que temos é ser o portador daquele que não consegue ir sozinho. É ser o samaritano a beira do caminho; é continuar orando pelo que não parece ter jeito. A Igreja de Cristo é convidada a pregar para o sujo e enfermo e ter um olhar mais apurado para o que realmente importa, oportunizando o crescimento e desenvolvimento das pessoas; lutando contra a eliminação daquilo que consideramos fora do padrão aceitável, pois foi para os doentes que Ele veio.
Hev

terça-feira, 19 de abril de 2011

Como adquirir fé


Orlando Boyer, em seu conhecido livro Os Heróis da Fé, p. 147, nos conta a história de Jorge Müller; pregador que Deus levantou para ajudar os menos favorecidos e anunciar ao mundo como Ele honra a fé de Seus filhos de maneira surpreendente. Müller, quando questionado sobre como o crente poderia adquirir tão grande fé, ensinou:

“1) Lendo a Bíblia e meditando sobre o texto lido, chega-se a conhecer a Deus, por meio da oração.
2) Procurar manter um coração íntegro e uma boa consciência.
3) Se desejamos que a nossa fé cresça, não devemos evitar aquilo que a prove e por meio do que ela seja fortalecida.
Ainda mais um ponto: para que a nossa fé se fortaleça, é necessário que deixemos Deus agir por nós ao chegar a hora da provação, e não procurar a nossa própria libertação. Se o crente desejar grande fé, deve dar tempo para Deus trabalhar.”

Por vezes temos facilidade em acreditar em tanta coisa, mas uma dificuldade imensa em crer que Deus pode nos ajudar com nossos problemas. Acreditamos mais no que podemos ver e isto é totalmente avesso a 2 Coríntios 5.7, que diz que nós andamos pela fé e não por vista. O terceiro ponto colocado por Müller é bem difícil de viver. Queremos evitar a prova, se possível for, fugir dela ou fingir que não existe. Gostamos de evitar o que dói e nos voltar para o que dá prazer. Quando não temos as ferramentas corretas para lidar com o problema naquele momento, então preferimos deixá-lo, largá-lo em algum canto da nossa vida. Mas isso só acumula problemas para serem resolvidos.

“Não procurar a nossa própria libertação” é não querer se desfazer de qualquer jeito e a todo custo de algo que te incomoda. É deixar Deus fazer do modo Dele, nos libertando verdadeira e perpetuamente. Não é atropelando tudo que nos livramos das coisas. Pode ser que haja um processo e dentro desse tempo sejamos moldados para uma grande obra e fiquemos mais parecidos com Cristo e mais belos para nós mesmos.

 “Dar tempo para Deus trabalhar” é continuar seguindo o caminho ligado a Deus em oração e atitude. É não querer que as coisas sejam feitas no nosso tempo e deixar tudo agora nas mãos de Deus. Se não há nada que você possa fazer exatamente agora por determinado problema, será que se desesperar vai te tirar do lugar? No momento da provação não há oportunidade real para correr dela; existe a oportunidade para acrescer a intimidade com Deus e mostrar-se absolutamente dependente da provisão divina. 

Se algo está difícil, não evite olhar para o que deve ser feito. Cristãos que agem assim sempre estão com a fé do mesmo tamanho sem falar da imaturidade espiritual, sempre à base de leite. Encarar exige esforço, relutar contra os posicionamentos externos e alheios, sintonizar-se tão somente na voz que traz direção certa e segura. Orar "Senhor, aumente a minha fé" é importante, porque a vida cristã gira em torno de crer no que não dá pra ver nem tocar fisicamente,  mas só orar é pouco. É necessário tomarmos a forma de Cristo que se esvazia de si mesmo, se nega a viver o que não era o tempo e decide encarar a cruz.
Hev

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um coração sincero vale mais

Karen Armstrong em Defesa de Deus, p.175, cita a história de dois homens bem conhecidos; Lutero e Calvino na perspectiva da justificação e da observação do rito.

Lutero achava-se tão zeloso com a ordem e lembrava que com certeza se um monge pudesse entrar no céu pela disciplina monástica, este monge seria ele. Depois de Cristo ter revelado ao seu coração que um rito não podia salvar-lhe, e que “nossas boas ações são resultado e não causa do favor divino”, ele se sente renascer com as palavras de Romanos “o justo viverá pela fé”.

De igual forma, Calvino estava tão encantado com a igreja enquanto instituição, que não queria e não conseguia se libertar dela. Segundo suas palavras, foi necessário que Deus o conduzisse em outra direção “com a rédea oculta de sua providência”.

Nós também, assim como muitos homens e mulheres que serviram de inspiração, precisamos passar pelo crivo da fé que nos liberta para o renascimento. Muitos já se acharam fiéis quando na verdade não passavam de escravos da Igreja...E quantos de nós não nos achamos ativos cooperadores de Cristo quando na verdade faz um bom tempo que não temos um encontro verdadeiro com o Deus invisível?

Continuamos nossas atividades eclesiásticas a fim de não perder o ritmo e o tempo, mas ignoramos o fato de termos que parar para rever nossa comunhão com Cristo e com os irmãos. Uma fé madura está aberta e disposta a renovar-se. Um coração curado entende que a justificação nos torna íntimos do lugar santo de Deus; lugar que não chegaríamos por nosso mérito, e que uma instituição humana está mais para desviar o homem de Deus do que aproximá-lo, se a mesma não estiver ligada verdadeiramente à vontade e diaconia divina.

Quando não dá mais para encarar a fé como proposta de reconhecimento pessoal ou como algo que envelheceu em nós, podemos pedir licença e mudar de rumo. Um coração sincero pode encantar mais o olhar divino do que um coração pesado e cheio de coisas pra fazer pra Deus. 

Hev

terça-feira, 29 de março de 2011

Boneco de Sal

Se você quer conhecer a Deus é preciso a decisão de se perder em Deus, despedaçar-se para emergir novamente cheio de convicções novas de quem você é e de quem Ele é, agora que o provou inteiramente. A vida cristã é um grande paradoxo. É dando que se recebe, é perdendo que se ganha. É deixando algo para trás, que o carneiro surge como a provisão necessária para não se matar um filho precioso. Submeter-se a Ele, exige total renúncia e entrega. É dissolver-se para estar junto à sua origem, mais do que nunca. Estar nEle, e Ele em você.
Hev

“Talvez uma estória dos mestres espirituais antigos nos esclareça o sentido da perda que produz um ganho. "Era uma vez um boneco de sal. Após peregrinar por terras áridas chegou a descobrir o mar que nunca vira antes e por isso não conseguia comprendê-lo. Perguntou o boneco de sal:" Quem és tu? E o mar respondeu:"eu sou o mar". Tornou o boneco de sal: "Mas que é o mar?" E o mar respondeu:" Sou eu". "Não entendo", disse o boneco de sal. "Mas gostaria muito de compreender-te; como faço"? O mar simplesmente respondeu: "toca-me". Então o boneco de sal, timidamente, tocou o mar com a ponta dos dedos do pé. Percebeu que aquilo começou a ser compreensível. Mas logo se deu conta de que haviam desaparecido as pontas dos pés. "Ó mar, veja o que fizeste comigo"? E o mar respondeu:"Tu deste alguma coisa de ti e eu te dei compreensão; tens que te dares todo para me compreender todo". E o boneco de sal começou a entrar lentamente mar adentro, devagar e solene, como quem vai fazer a coisa mais importante de sua vida. E na medida que ia entrando, ia também se diluindo e compreendendo cada vez mais o mar. E o  boneco continuava perguntando: "que é o mar". Até que uma onda o cobriu totalmente. Pode ainda dizer, no último momento, antes de diluir-se no mar: "Sou eu".  Desapegou-se de tudo e ganhou tudo: o verdadeiro eu.”
(Leonardo Boff, A Estória do Boneco de Sal)



quinta-feira, 24 de março de 2011

Castigos, final de tudo ou responsabilidade humana?


Quando eu vejo meninos e meninas sendo explorados, mulheres africanas sendo mutiladas e tendo que se redescobrir como mulher, pais se voltando contra os filhos sem nenhum pudor declarando a morte da inocência, homens se dirigindo à Bíblia como o objeto mais recente que adquiriram no mercado da fé, o desencantamento feminino, eu só vejo mais motivos para querer dormir e acordar em Deus. Assim como o sol nasce e se põe tão liturgicamente. Isto, não com um caráter fatalista, mas amando a Parusia, a volta de Cristo mesmo.

Caim deve ter estremecido quando Deus anunciou que o sangue de seu irmão clamava da terra. A terra não o aceitou, expele e profere a maldição. O solo é claramente atingido pelo pecado, ele sofre, não cala o segredo.

Na leitura veterotestamentária percebe-se a coerência entre pecado e um bem estar cósmico. ‘Adam e terra estão conectados, conferindo a ele autoridade para guardá-la e cultivar, ter domínio sobre o reino animal e ser participante ativo da criação (Gn 2.15; 1.26; 2.19,20). Freqüentemente Deus amaldiçoava o solo por causa da promiscuidade humana. Eles vendiam seus corpos ou sua adoração, e Deus cortava a fertilidade da terra ou amaldiçoava com pragas (Joel 1.18-20; Lm 1.11; Jr 49.17,18; Lv 18.25; Jr 9.10,11; 14.1-6; 23.10; 9.10; 25.36; Gn 19.24; Ex 9.14) Os pastos se secavam, os animais morriam. Deus mostra Seu domínio acima do domínio humano. Ele requer a atenção e pureza devida. Deus usa a natureza para efetuar juízo. Se entenderem isso, podem viver promessas de paz e restauração (Ml 4.6; 2 Cr 7.14).

No Novo Testamento Jesus inaugura o reino, libera a salvação a todo que crê; se importa com as chagas humanas e torna a Igreja uma comunidade militante contra a desigualdade social, fome, pobreza, indiferença. Esta Igreja é perdoada, curada, recebe a salvação em todos os âmbitos. Ela clama de maneira pessoal sem carecer de intermédio e Deus atende, mas ainda continua sofrendo as conseqüências de seus pecados. É levada a olhar para frente e deparar-se com o fim apocalíptico. Ela deve ficar atenta para não ser enganada. Os selos são abertos, os flagelos enviados e o mundo futuro é palco de destruição, fome, morte, peste e a terra em sua totalidade é atingida. 

O Apocalipse não é calendário. A escatologia não deve ser uma obsessão cristã ao ponto que chegue um anjo e nos pergunte o que estamos fazendo olhando pra cima. A realidade é aqui. O Reino é aqui e agora com forte esperança para o que há de vir. Fica claro na trajetória humana, que Deus se revela na natureza de forma bela e também terrível. Mas o homem é o maior agente de transformação da natureza, trazendo sobre si suas mudanças intempestivas. Mudanças estas, que o homem não consegue suportar. Não vamos tirar a responsabilidade do homem e colocá-la nas mãos de Deus. Deus se importa com a natureza como sua criação, mas não é o tirano que diz “agora então lançarei isto sobre eles”. Existem pessoas orando em vários pontos do mundo. Existem muitos missionários devotos no Japão, mas eles também tiveram que encontrar o luto. O Apocalipse nada mais é do que uma mensagem de urgência, alerta que aponta para o inevitável fim e para o Dia do Senhor. Nada poderá detê-lo e a dor não é privilégio apenas para os ímpios. Com exceção de algumas aflições que não chegarão aos genuínos servos do Cordeiro, a Bíblia não retira de nós o peso da morte, sofrimento e a dificuldade de, muitas vezes, ter que começar do zero novamente, reconstruindo tudo.

A Ekklesia é chamada para fora. Somos a comunidade terapêutica e comunicante do Messias que veio, nos encontrou feridos, curou nossas chagas, nos levou para uma hospedagem e disse que iria voltar. Ao passo que Cristo nos mandar ir e pregar, o foco da Igreja deve ser restaurar e ser o apoio em tempos de tão grande calamidade ao invés de ficar pontuando qual cavaleiro saiu ao encontro da terra para castigar. Há um grande perigo aí. O de se alienar da terra e ansiar incansavelmente o céu, pregando o céu, sonhando com o céu e sendo omisso com o Cristo que anda na terra.

Inevitavelmente, o mundo vai mudar e a Bíblia vai se concretizar, mas isso para nós que provamos da nova aliança, Brit Hadashah, é apenas motivo de júbilo pelo encontro com O Eterno que vamos ter e também de vigilância e trabalho, porque a seara é grande e ainda tem muita coisa pra eu e você efetuarmos aqui.

Bendito são os que amam a vinda do Senhor. Os que desejam ardentemente o dia em que vamos saber nosso novo nome numa pedra branca (Ap 2.17). Mas enquanto isso continuemos nosso trabalho, deixando a justiça divina a Seu próprio critério, e tornando-nos cada dia mais humanos, cuidando da terra, nossa origem em ‘Adam. Isso é cristianismo, isto é cidadania e o reflexo do Triuno Deus.
Hev